A aposentadoria não significa um final, mas sim uma nova fase em que a pessoa poderá realizar outros objetivos e projetos

domingo, 2 de junho de 2013

Médicos estrangeiros no Brasil


Médico, diretor da Federação Nacional dos Médicos e da Confederação Nacional dos Trabalhadores Universitários Regulamentados (CNTU), membro titular da Mesa Nacional de Negociação do SUS, foi presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo

Não somos contra a entrada de médicos estrangeiros no Brasil, desde que se submetam a revalidação do diploma, da mesma forma que fazem para clinicar em seus países. Um médico brasileiro não consegue trabalhar em Cuba ou em Portugal se não se submeter a rigoroso exame de revalidação. É dessa forma que devemos acolher também os de outros países que queiram trabalhar aqui. 

Aqueles que desejarem vir ao Brasil têm que ter a mesma formação dos nossos médicos, para efetivamente atenderem com qualidade a população brasileira. Da mesma forma que lutamos para fechar escolas que formam péssimos profissionais, sem a qualidade que a maioria dos estabelecimentos de ensino pratica, não queremos estrangeiros sem formação adequada. O fundamental, nesse processo, é ter médicos que entendam a nossa realidade e atendam com qualidade. 

Os médicos estrangeiros não foram formados para atender o nosso perfil epidemiológico e não falam português — o Brasil é continental e no norte tem expressões não usadas no sul. É mais uma dificuldade para que os estrangeiros possam firmar o diagnóstico, posto que é fundamental a interação do profissional com o paciente. Por isso, é essencial a fluência em português. Um dos critérios usados no processo de revalidação do diploma, em qualquer parte do mundo, é a proficiência na língua nativa. 

Outro aspecto a considerar é a ausência de infraestrutura nas regiões inóspitas de nosso país. Será que o governo, num passo de mágica, criará as condições necessárias para que esses médicos atendam com qualidade? Serão contratados outros profissionais de saúde para compor a equipe multiprofissional? Terão laboratórios, raios X, tomografia etc.? A responsabilidade será transferida para os municípios, que, historicamente, não investem na área de saúde. A proposta, ao que parece, é oferecer medicina de baixa qualidade para os pobres. Não é possível fazer medicina, sem uma estrutura necessária para que esses médicos possam atuar. 

Segundo o professor Marcelo G. da Silva, “o Estado não pode e não deve se eximir de suas responsabilidades de intervir no setor, de forma a garantir aos cidadãos o acesso aos serviços de saúde tendo por substrato o principio da necessidade”. Para isso, é importante que estados cumpram a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 29. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil gastou 3,6% do PIB com saúde pública em 2008. Desse montante, apenas 56% vêm do erário, consoante dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), muito aquém do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além do subfinanciamento, a baixa remuneração, a ausência de plano de cargos, carreiras e salários, a ausência de política específica para fixação perene e temporária de trabalhadores da saúde em áreas de difícil provimento e as péssimas condições de trabalho são fatores que contribuem para a fuga dos profissionais dessas áreas.

Não querem dar a mesma qualidade recebida pelos governantes e a elite brasileira quando ficam doentes. Esses procuram os melhores hospitais privados do país. A população não tem acesso a esse tipo de atendimento, e fica à margem do processo. É necessário investir, investir e investir. Queremos um financiamento da saúde que efetivamente possa levar a curto e médio prazo a melhoria da atenção à saúde a toda a sociedade. 

O Ministério da Saúde acenou apenas com a contratação de médicos estrangeiros. Não falou, em nenhum momento, em financiar a modernização dos equipamentos nessas áreas. Ao contrário, em recente pronunciamento, o ministro Alexandre Padilha transferiu a responsabilidade para os municípios, que vivem mendigando verbas. Não é trazendo estrangeiros que o problema de provimento de médicos nas regiões mais inóspitas do país será resolvido. 

A ausência de médicos em regiões de difícil provimento só ocorre pela ausência total de uma política séria de fixação de profissional que contemple proposta mais criativa, a exemplo de uma carreira de Estado, nos moldes dos magistrados. Existem projetos dessa natureza bem elaborados, mas o governo não tem coragem nem força para propor medidas dessa natureza. Os ministros estão dando um tiro no próprio pé.

Fonte: Correio Braziliense